domingo, 13 de novembro de 2011

Como ler o blog com o conto dos animais do presépio

Este blog contém o conto de natal intitulado “Os animais do presépio”.
O tema central do conto é: "as figuras dos animais do presépio". 
Este conto traz as estórias da "Vó Zuza" narradas ao seu neto Valdomiro. A avó responde à pergunta do neto: "Porque a senhora colocou as figuras dos animais tão perto da Sagrada Família no presépio?".
Este conto pode ser lido por capítulos, indicados pelos “Capítulos do conto Os Animais do Presépio”, ao lado esquerdo:


Ou por páginas, publicadas no mês de novembro:

Para se ler uma página posterior, deve-se “clicar” em Postagens mais antigas; e para voltar à página anterior, deve-se “clicar” em Postagens mais recentes:

Dedicatória

a todos filhos e netos da "Vó Zuza" 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

1.1 - As estórias da Vó Zuza

O CONTO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
Meu nome é Valdomiro. Na minha terra, é muito comum que os nomes sejam iguais aos dos pais ou dos avós, ou ainda que sejam uma combinação de partes dos nomes de parentes próximos. No meu caso, é a união da parte final do nome do meu avô materno, Os-valdo, com a do meu avô paterno, Arge-miro. Mas ninguém me chama pelo nome; na família materna, sou Valdo; na paterna, Miro. E com o passar do tempo já me acostumei a ser chamado das duas formas.
Hoje, vieram-me umas boas recordações dos quinze Natais que passei em Pouso Alto. Cada Natal era aguardado com ansiedade. Era a época para rever os meus mais de cinqüenta primos que vinham de todas as partes do Brasil para festejar o aniversário da nossa avó: a vó Zuza.
Não se pense que a nossa avó se chamava Zuza. Seu nome era muito bonito: por ter nascido no dia de Natal, os meus bisavós deram-lhe o nome de Maria de Jesus. Mas, com o passar do tempo, o seu nome foi-se transformando: Maria de Jesus passou a ser apenas “de Jesus”, Jesusinha, Zuzinha,... até se tornar simplesmente Zuza.
A vó Zuza tinha muitas qualidades, entre as quais a paciência – muito necessária para educar os seus treze filhos – e a doçura de temperamento e de cozinha. Explico-me: fazia uns doces de abóbora com coco como nunca comi outros iguais; os seus bolos de laranja e a goiabada caseira também eram imbatíveis; os biscoitos de nata eram "do outro mundo"... Mas a qualidade que mais me impressionava era a de ser uma excelente contadora de “causos”, como se diz em Minas, talvez a melhor entre todas as contadoras da cidade de Pouso Alto.



Dos Natais que passei com a vó Zuza, houve um mais significativo, pois ela contou-me a mais bela história que escutei na vida: a dos animais do presépio, desvendando-me alguns dos seus principais segredos.
Ela tinha montado o presépio na sua ampla sala de estar. Compunha-se de treze figuras humanas, além das da Sagrada Família, que fora comprando aos poucos: a cada filho que nascia, vó Zuza adquiria uma imagem representando o mais novo membro da família. Quando lhe perguntávamos onde é que estavam ela e o avô, apontava, sem dizer nenhuma palavra, mas com uma cara de “levada”, para um casal de pombinhos que tinha colocado na janela da casinha do presépio. Nós apenas ríamos.
Também havia ali as tradicionais figuras de animais: um burro, uma vaquinha leiteira e algumas ovelhinhas.
Na ocasião a que me refiro, eu tinha uns quinze anos; estava observando o presépio quando, sem que eu o percebesse, a vó Zuza se aproximou de mansinho e me perguntou:
– Miro, o que você está pensando?
– Vó Zuza, estava pensando por que a senhora colocou um burro, uma vaca e algumas ovelhinhas dentro da casinha do presépio, tão perto de Jesus, Maria e José. Esses animais até estão mais perto do Menino Jesus do que os homens!
Ela começou a dizer, da maneira como sempre principiava os seus “causos”:
– Essa é uma longa história, mas, se tiver tempo, posso contá-la a você...
Sempre tínhamos tempo para ouvir as suas incríveis histórias. Mas, para ouvi-las, tínhamos que “entrar no jogo”: agir como se acreditássemos em tudo o que contava e aceitar ser tratados algumas vezes como crianças, já que, para a vó Zuza, com os seus setenta anos, não passávamos mesmo disso. Se começássemos a duvidar do que dizia, a história não chegava ao fim: a vó Zuza interrompia-a com alguma desculpa amável. Eu, em plena adolescência, tinha que me esforçar muito para não ser “do contra” e aceitar ser tratado como criança. Mas valia a pena o esforço, pois gostava muito das suas histórias. Por sua vez, a vó Zuza gostava da nossa participação, de que fizéssemos perguntas inteligentes e que exigissem dela respostas rápidas e criativas.
– Tudo começou com a criação do mundo, disse ela, já iniciando a sério o “causo”.
Nesse momento, pensei: “Xiii... Desta vez a história vai longe!...”

1.2 - A criação do burro

A CRIAÇÃO DOS ANIMAIS DO PRESÉPIO
No sexto dia da Criação, Deus criou os animais terrestres.
Nos dias anteriores, já tinha criado os céus com os seus astros: o sol, a terra e a lua, e com eles o dia e a noite; tinha criado também a terra firme e o mar. Já havia enchido a terra de belas plantas, árvores de frutos saborosos e flores exuberantes; e os rios e o mar de peixes de todas as cores e tamanhos, e de todo o tipo de plantas e animais marinhos.
Na manhã do sexto dia, Deus disse: “Voem as aves sobre a terra, nos céus. E a terra se encha de seres vivos: animais domésticos, répteis e animais selvagens”. E assim foi criada a maioria dos animais.
Mas Deus pensou: “Ainda faltam os principais animais, aqueles que terão uma missão especial a desempenhar no meu presépio. Faltam ainda o burro, a vaca, o cordeiro e o homem”.
A criação do burro
E pegando um pouco de lama de cor marrom escura, Deus modelou o burro, que manteve na pele a cor da lama da qual fora moldado.

E Deus deixou o burro escorrendo. Quando já tinha escorrido boa parte da água, a lama ganhou consistência e o burro passou a ser um ser vivente.
E Deus disse-lhe:
– Tu, burro, serás um ser que não se pertence, que não trabalha em benefício próprio, mas em benefício dos outros e, principalmente, a meu serviço. A tua alegria e felicidade estarão em servir.
Serás um animal de carga: levarás no teu lombo desde as cargas mais simples, como os feixes de lenha, sacos de cereais e grãos, até valiosos carregamentos de pedras preciosas. Mas não farás caso da qualidade da carga: porás o mesmo empenho e diligência em levar com cuidado qualquer peso que venham a colocar sobre o lombo. Por isso, serás o gozo e o descanso do teu amo.
Terás orelhas grandes para ouvir bem a voz do teu amo, que te guiará em cada passo do teu caminho.
Em muitos lugares de seca ou de poucos rios, serás atrelado a uma nora, e com a força do teu trabalho, dando voltas à nora e fazendo-a girar, bombearás a água do poço para os pomares, para as hortas, para os jardins e para os reservatórios de água. Pelo teu trabalho, haverá folhagens verdejantes nos bosques, verduras nas hortas, flores das mais variadas cores nos jardins, frutas doces e saborosas nos ramos das árvores e água limpa e cristalina para matar a sede dos outros animais.
Não te esqueças disto, pois quando estiveres girando a nora não verás os frutos do teu trabalho. Trabalharás todos os dias da tua vida com a mesma pressão dos arreios, percorrerás o mesmo trajeto circular, dia após dia, semana após semana, ano após ano. Mas nunca deixes de ouvir a canção da água, que rega as plantas e sacia a sede dos animais.
– Vó Zuza, posso interromper?
– Claro.
– Sabe que eu nunca vi uma nora? É claro que deu para entender que é uma espécie de bomba que é movida pela força do burro, assim como alguns moinhos são movidos pela força da água. Mas de onde a senhora “tirou” essa nora?
– Miro, não fui eu que “tirei” a nora de lugar algum. Deus é que falou dela ao burro que acabava de criar. Para dizer a verdade, eu também nunca vi nenhuma. Minha avó, que veio de Portugal, era quem me contava histórias do burro de nora. Mas não sei se ela viu uma nora ou não, ou se alguém lhe falou dela. Isso eu nunca lhe perguntei. De qualquer forma, Deus, ao criar o burro, não pensou apenas nos burros da nossa terra, que não impulsionam nora alguma, mas nos burros de todo o mundo.

– Desculpe-me tê-la interrompido.
Deus continuou a dizer ao burro:
– Não ficarás sem prêmio. Se algum dia, ao voltares ao estábulo para receber a tua ração pelo teu trabalho, e o teu dono, por ingratidão, se esquecer de ti, tem a certeza de que eu nunca me esquecerei. Enviarei ao teu estábulo um dos meus anjos com as mãos cheias de torrões de açúcar para retribuir tudo o que fizeste por mim.
O burro nem tinha começado a mexer-se e já se sentia muito bem pago! Mas Deus continuou a falar-lhe:
– Devo ainda profetizar que servirás de montaria às pessoas mais importantes do mundo. E o mais essencial de tudo, o que dará sentido pleno à tua vida: um dia, um dos teus descendentes estará dentro do presépio de Belém.
– Vó Zuza, mas será que Deus falou com o burro como se ele fosse um ser inteligente, que pudesse entender?
– Não se fazem mais netos como antigamente! Miro, é claro que, se Deus falou com o burro, é porque lhe deu a capacidade de entender; senão, não falaria!
– Esse burro parece mais gente que muita gente, pois ouve e entende a Deus.
– Isso é verdade. Mas, meu neto, deixe-me explicar bem as coisas para que você não as confunda. Burro é burro, gente é gente, mas Deus quis que o burro fosse figura de gente.

1.3 - A figura do burro do presépio

– Francamente, não entendi! É claro que o burro é figura do presépio, mas que seja figura de gente, isso não dá para entender!
– Pois aí está um dos segredos do presépio. Meu bem, você perguntou-me por que as figuras do burro, do boi e das ovelhas estavam mais perto da Sagrada Família do que as dos homens. Entre outros motivos, porque representam pessoas, mas não quaisquer pessoas, e sim as que têm as qualidades que vemos retratadas nos animais do presépio. Você nunca leu nos salmos que “Deus salvará os homens e os burros”? Isso significa que irão para o céu as pessoas que se tiverem identificado com o burro.



– Vó Zuza, quais são então as qualidades do burro que essas pessoas viveram?
– Miro, isso não se pergunta! Isso se deduz da própria história da criação desse animal!
Os burros representam todas aquelas pessoas que têm uma profunda sabedoria de vida. Elas sabem e experimentam que só encontramos a alegria e a felicidade quando vivemos para servir as pessoas que Deus colocou ao nosso lado. São figuras das pessoas de alma mais delicada e fina, que consideram um privilégio poderem servir a Deus e aos outros.
São burrinhos de Deus tantos pais e mães que vivem em função dos filhos, procurando dar-lhes toda a atenção, garantindo o seu sustento e cuidando de cada um deles. O burrinho do presépio também representa os filhos que não contabilizam os serviços que prestam em casa, e não se queixam das pequenas tarefas que lhes são confiadas, transformando-as em manifestação de amor e agradecimento aos seus pais.
São burrinhos de Deus, que estão muito perto do Menino Jesus, as pessoas que sempre se adiantam a realizar pequenos serviços caseiros: trocar uma lâmpada que se queimou, abrir a porta quando ouvem a campainha da casa soar, limpar as manchas de café ou refrigerante que alguém derramou, regar uma planta que está secando... E de preferência tudo isso ocultamente, sem chamar a atenção para si mesmas.
– Isso não é nenhuma indireta para mim, né?
– É claro que não! Você sabe que sempre fui muito franca e direta.
Mas continuemos: a imagem do burrinho do presépio também simboliza os verdadeiros amigos que sabem valorizar os outros, preparando alguma lembrança personalizada para o dia do seu aniversário, que se lembram de separar um artigo em uma revista ou jornal que interessa a um colega, que se colocam à disposição para acompanhar um amigo em um plano que deseja fazer...
– Como o mundo seria melhor se houvesse mais burrinhos de Deus espalhados por aí!
– Sem dúvida! Mas comecemos a melhorar o mundo sendo nós mesmos burrinhos de Deus.
– E a parte da história que fala do burrinho de nora? A senhora ainda não comentou nada sobre ela!
– Vejo que você está atento à história da criação dos animais! Que bom! Mas é claro que eu não ia deixar escapar o burrico de nora nem o burrinho de carga.
– Já estava esquecendo que Deus criou o burro como animal de carga!

– Miro, o burro de carga é figura de todas as pessoas que não tiram o ombro, que não fogem da carga que Deus lhes confia. Para essas pessoas, não importa a qualidade que os outros atribuem à carga que levam, pois sabem que o que importa na vida é levar a carga que Deus colocou nos seus ombros, seja qual for. Para Deus, o valor da carga não depende tanto do preço que os homens pagam por ela, mas do amor com que o burrinho a carrega.
Já o burrinho de nora é figura de todas as pessoas que realizam um trabalho repetitivo, que poderia até tornar-se monótono por ser sempre o mesmo. Mas não é assim, pois essas pessoas sabem renovar o seu amor a cada dia. Quando o amor é renovado, já não há rotina nem falta de motivação, e evita-se o cansaço espiritual, embora possa existir o cansaço físico. Os trabalhos repetitivos tornam-se então pequenos rituais de amor em que se procura fazer tudo cada vez com mais carinho e perfeição. E onde haveria terra árida se não houvesse o burrinho de nora, há agora um lugar agradável, de repouso e descanso, um remanso de felicidade.
– Vó Zuza, agora entendo por que a senhora quis colocar a figura do burro tão perto da Sagrada Família. Eu faria o mesmo se soubesse de tudo isso.

1.4 - A missão do anjo Fanuel

A CONVOCAÇÃO DOS ANIMAIS
– Vó Zuza, a senhora já explicou a historia da criação do burro, ... mas ainda não contou como se cumpriram as profecias de que algum dos seus descendentes estaria no presépio!
– Então, passemos à segunda parte da história: o cumprimento das profecias sobre o burrinho do presépio.
O Anjo Gabriel já tinha sido enviado a Maria, para anunciar que Ela seria a Mãe do Messias. E como Maria tinha respondido generosamente que sim, Deus já estava presente no seu seio. Talvez tenha sido o momento mais importante da história dos homens e de toda a criação! Embora no momento em que isso aconteceu, ninguém o tenha percebido, pois Maria não quis contar a ninguém que estava grávida.



A convocação do burro de nora
Por aqueles dias, Maria andava preocupada com a saúde de José, porque o via cheio de trabalho e tendo de carregar peso de um lado para outro, pois não tinha nenhum animal de carga. Além das encomendas habituais da carpintaria, tinha assumido trabalhos extras para conseguir um dinheiro a mais e comprar o material que faltava para a sua nova casa. E também estava fazendo os móveis para pôr lá.
Foi quando Maria resolveu rezar a Deus e pe-dir-Lhe um burrinho de carga para José, pois caso contrário o seu esposo certamente terminaria com problemas de coluna.
Ao ouvir a oração de Maria, Deus chamou imediatamente um anjo alegre a quem, para nos entendermos, vou chamar de Fanuel.
– Vó Zuza, eu nunca ouvi falar desse anjo Fanuel!
– O anjo Fanuel é aquele que ficou encarregado de preparar, de acordo com os planos de Deus, o seu presépio. Saiba que o nome Fanuel significa “Aquele que vê a Deus face a face”. 
Deus disse a Fanuel:
– Começa a cumprir-se a profecia sobre os animais do presépio. Fanuel, vou enviar-te à casa de Maria.
Fanuel, que já sentia uma ponta de inveja do Arcanjo Gabriel por ele ter visitado Maria, ficou tão eufórico que não se conteve e exclamou, interrompendo a Deus:
– Que graça imerecida poder ver a Mãe do meu Senhor!
Deus sorriu ao ouvir as palavras de Fanuel e continuou:
– Hoje subiu ao céu a oração de Maria. Se Maria soubesse a alegria que me dá ouvir as preces da minha filha predileta! Mas, Fanuel, imagina só: Ela quer que José tenha um burro! E a verdade é que não posso negar-lhe nada, já que Ela nunca Me negou nada. Encontra, pois, o único burrinho de nora de Nazaré e convence o seu dono a deixar que parta contigo. E convence também o burro, pois quero que o presente seja fruto da generosidade do seu dono e da entrega livre do burrinho aos meus planos.
Fanuel pensou: “Tenho a certeza de que convencer o burro será a parte mais difícil desta missão”.
Deus prosseguiu:
– Fanuel, o que pensaste?!
– Nada de importante, Senhor: uma bobagem!
– Depois, Fanuel, conduz o burrinho de nora até a casa de Maria, e deixa-o amarrado à porta dEla. Ela entenderá que é um presente meu.

1.5 - A convocação do burro de nora


E o anjo Fanuel saiu em disparada. Em um piscar de olhos, estava diante do dono do burrinho de nora, que quase desmaiou ao ver um anjo.
– Não tema! Sou o anjo Fanuel e venho da parte de Deus para pedir o seu burrinho de nora.
– Logo o meu burrinho! Ele é a fonte do meu sustento! É quem rega a minha horta!
Fanuel pensou: “Como alguns humanos são tolos! Será que não entendem que, quando Deus pede alguma coisa a alguém, é Ele quem lhe faz um favor? Se é tão bom pagador que dá cem vezes mais do que pede! Aqui, pelo jeito, vou ter que negociar”.
– Se você me der o burrinho que Deus deseja, terá chuva abundante na sua horta, de forma que não sentirá falta dele; e Deus dará fecundidade às suas terras, de maneira que produzirão bem mais durante anos e você poderá comprar cavalos, vacas e outro burrinho para a sua nora.
– Anjo Fanuel, se é assim, pode levar o meu burrinho; mas há um pequeno problema: ele é um pouco teimoso e pode empacar se não conhecer bem o caminho por onde estiver andando.
– Deixe comigo, que eu mesmo vou guiar o burrinho.
O anjo Fanuel voou até o burro e comunicou-lhe:
– Burrinho de nora tão gracioso, Deus escolheu você para uma missão muito especial. O burro respondeu:
– Tem certeza de que Deus me escolheu, logo a mim que não passo de um burro qualquer?!
– Vó Zuza, que o burro entendesse o que Deus dizia, já era espantoso; mas que ele fale com o anjo, não é demais?!



– Miro, fique sabendo que não é a primeira vez que Deus dá a um burro a graça de falar. Você nunca ouviu contar da burra de Balaão?
– Não, vó Zuza.
– Você tem que ler mais a Bíblia, pois lá se conta como a burra de Balaão falou com esse profeta. Mas, para já, deixe-me retomar a história.
O burrinho de nora não acreditava que Deus precisasse de um burro. Tanto que disse ao anjo:
– Não pode ser! Você não sabe que, quando uma pessoa não pensa com clareza, logo lhe dizem: “Como você é burro, hein!”?
– Burrinho de nora, você sabe muito bem que essa fama de o burro não ser inteligente é falsa: dentre os eqüinos, penso que os burros são os mais inteligentes de todos.
O burro não se convenceu e continuou a argumentar:
– Fanuel, você não sabe que os fazendeiros colocam nas porteiras obstáculos para que os animais não passem e os denominam “mata-burros”?
– Burrinho, sei muito bem que os “mata-burros” não são problema para você, pois, tomando distância, você sempre saltou todos os obstáculos e “mata-burros” que encontrou no seu caminho.
– Mas, Fanuel, além de tudo isso que dizem da minha espécie, eu sou um burro um pouco nervoso, às vezes me irrito com a quantidade de trabalho e solto uns zurros altíssimos, que podem espantar qualquer um.
– Burro de nora, eu ainda nem lhe disse qual seria a sua missão e você já começou a dar uma série de desculpas! Pois eu lhe digo que todas essas desculpas são “surradas” e “esfarrapadas”! Quanto aos zurros, é verdade que seria melhor se você não os soltasse, pois são bem estridentes e podem atrapalhar um pouco a sua nova missão; mas na verdade são poucos, e Deus sabe que, por mais que reclame, zurre e até ameace abandonar o seu trabalho, você nunca falhou. Deus sabe que você é um animal de total confiança. E pode parar de tentar encontrar novas desculpas, pois Deus sabe muito bem a quem escolheu: conhece você perfeitamente e lhe conferirá todas as graças para que cumpra bem a missão que Ele lhe vai confiar.
– Anjo Fanuel, está bem, eu me rendo. Qual é, afinal, essa minha missão?
– Não é pouca coisa, não! Primeiro, você levará a Mãe do Salvador às montanhas, pois Ela vai visitar a sua prima Isabel. Terá de pisar macio, pois o Messias já está no ventre dEla.
– Quer dizer que vou transportar a Mãe do Salvador dos homens e dos burros?!
– Isso mesmo. Depois, você servirá por uns meses a José, o homem escolhido para ser o pai do Messias na terra. José é carpinteiro, e precisa da sua ajuda para carregar madeira de um lado para o outro e puxar a carroça com os móveis que faz ou conserta.
A seguir, quando sair o edito do imperador para que se faça um recenseamento geral dos judeus, você irá a Belém com José e Maria, que estará com a gravidez avançada.
Em Belém, você será posto junto do presépio do Menino-Deus para adorá-lo e ajudar a aquecê-lo no dia de Natal.
Quando perseguirem o Menino para matá-lo, você levará a Sagrada Família para o Egito, e, quando o perigo passar, irá trazê-la de volta.



Um dos seus descendentes servirá mais tarde de trono para o Messias, quando, já adulto, Ele entrar solenemente na cidade de Jerusalém. E agitarão palmas, e estenderão tapetes no seu caminho, e o seu descendente poderá pisar macio.
O burrinho de nora, todo orgulhoso da sua missão, respondeu:
– Se Deus precisa tanto de mim, não posso deixá-lo na mão. Pode dizer-Lhe que sinto muita alegria em poder ser-Lhe tão útil. Mas devo informar que não conheço os caminhos que devo percorrer, pois sempre trabalhei na nora, sem sair do meu lugar.
– Não se preocupe. Deus enviou-me para guiá-lo no seu caminho.